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MUSICA BRASILIS

Mulato dissolve sua psicodelia entre o urbano e o bucólico no EP “Criatura”

Novo trabalho do artista mergulha na primeira infância, nas tensões de São Paulo e em sonoridades que vão do hip hop ao indie rock, revelando um dos lançamentos mais sensíveis e inventivos de 2025.

O artista paulista mulato, nome adotado por Matheus Antonio desde 2022, apresenta seu novo EP “Criatura”, um trabalho que costura psicodelia, memória afetiva, caos urbano e introspecção num mosaico que dialoga com São Paulo e com a própria trajetória do músico. Entre drones, violões, hip hop, jazz, bossa nova e indie rock, o disco constrói paisagens que misturam o bucólico de Jandira e a pulsação frenética da metrópole, refletindo sobre sobrevivência, identidade e transformação.

O artista, que iniciou sua caminhada há cerca de dez anos sob a alcunha de Theuzitz, revisita a própria história para consolidar uma nova fase. Depois de integrar a cena lo-fi rock da segunda metade dos anos 2010 e participar da primeira geração do chamado “Rock triste”, Mulato agora aprofunda sua relação com a cultura brasileira e com suas raízes, abraçando ritmos, timbres e narrativas que expandem sua estética sem perder o fio condutor emocional.




Um processo visceral entre Jandira e São Paulo

O EP nasceu entre julho e outubro de 2024, num processo integrado em que Mulato compôs, produziu e gravou todas as guitarras e violões. Pedro Millecco (bateria), além de baixistas e arranjadores convidados, adicionam camadas ao universo sonoro criado pelo artista, que define o trabalho como um mergulho na própria natureza e na “selvageria do inconsciente”, revisitando a primeira infância e a sensação de caminhar sem filtros.

A estética visual acompanha o mesmo espírito, com capa criada em parceria entre Mulato, Myrella Amorim e o fotógrafo Nando Eryc. O resultado é um registro que coloca o artista diante de si mesmo, reconstruindo o passado para atualizar sua voz no presente.

Faixa a faixa: a criatura toma forma no caos, na memória e na transcendência

Bizarro!!! abre o disco com o impacto sonoro típico do transporte público paulistano. Com texturas sobrepostas e a voz do metrô como porta de entrada, a faixa simula o ritmo frenético da cidade e mergulha o ouvinte no colapso sensorial urbano. É pesada, pulsante e feita para ser ouvida em alto volume.

Tatuagem de Cobra quebra o clima caótico e traz uma composição guiada por violão, evocando o rádio dos anos 1980 e 1990. O Ouroboros surge como metáfora central, refletindo o eterno retorno e a necessidade de renascer continuamente. A canção alcança seu ápice no verso “Toco o céu como 2Pac / E regresso cada vez mais verdadeiro”, instaurando um diálogo entre legado, autenticidade e vulnerabilidade.

Desenho Cego aprofunda a faceta mais experimental do EP, misturando guitarras etéreas, acordes de jazz e bossa nova, soul setentista e psicodelia. A canção traduz musicalmente a multiplicidade de influências da diáspora negra e o desdobramento global do rock alternativo, enquanto a letra reflete sobre escolhas, acaso e transformação.

Azaleia surge como um respiro, explorando o vazio da hiperconexão digital com guitarras e camadas vocais. Curta e delicada, a faixa questiona o desejo e a necessidade de pertencimento em tempos de estímulos constantes, deixando no ar a dúvida entre querer alguém ou apenas buscar emoção.

Criatura, faixa-título, é o ponto central do projeto e seu momento mais épico. Com viola caipira, a música narra uma jornada de sobrevivência e renascimento marcada por um trauma profundo, simbolizado pelo tiro disparado pelo melhor amigo do artista. O mantra “Eu não morri” funciona como declaração de resistência e reafirmação de existência, encerrando uma narrativa que atravessa o medo, o caos, a dor e a força vital do reencontro consigo mesmo.

Punks, responsável por fechar o EP, muda novamente o eixo da obra. Entre samples, instrumentação orgânica e 808s, a faixa trata do deslocamento urbano a partir das vivências de mulato e Hugo Noguchi. O contraste sonoro desemboca no mesmo ambiente caótico de Bizarro!!!, fechando o ciclo com o retorno ao ruído, ao movimento e à sobrevivência diária nas ruas.

Um artista em reconstrução contínua

Matheus Antonio, agora definitivamente assumido como Mulato, consolida em “Criatura” uma obra que combina identidade, cultura, memória e vulnerabilidade. Depois de trilhar caminhos no lo-fi, no rock triste e na música independente desde 2016, o artista reafirma sua maturidade sonora e narrativa, conectando a modernidade da música brasileira a influências alternativas globais.

Em 2025, Mulato se firma como um nome singular dentro da música alternativa contemporânea, compondo a partir de experiências íntimas e coletivas, e transformando caos, infância, ancestralidade e cidade em matéria-prima de um dos EPs mais expressivos da cena independente neste início de ano.

Acompanhe Mulato nas redes:

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Por Diego Pessoa – Homins Dissemina

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Neder de Paula

Neder de Paula

Neder é fundador, CEO do portal e web rádio OverRocks. Designer, webdesigner, videomaker, apaixonado pela família, quadrinhos, cinema, tv, UCM, DCU, metalhead desde os 12 anos e curador musical na Divulguei e Groover.

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