Daniel Siebert fala sobre carreira independente, espiritualidade e a força da música autoral
Com mais de 20 anos de trajetória na música, Daniel Siebert construiu uma carreira marcada pela versatilidade, dedicação e constante evolução artística. Cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista, ele transita com naturalidade entre o rock, o heavy metal, seja com o trabalho solo ou bandas, sempre imprimindo identidade e profundidade em suas criações. Sua vivência de 10 anos nos Estados Unidos, durante a efervescência do rock dos anos 90, contribuiu significativamente para sua formação musical e domínio da língua inglesa. Ao longo dos anos, Daniel consolidou parcerias importantes e desenvolveu uma produção consistente, mesmo como artista independente. Com lançamentos recentes e projetos contemplados por incentivo cultural, ele reafirma seu compromisso com a música autoral e com mensagens que inspiram e transformam.
Daniel, conte-nos sobre sua trajetória musical, influências e como morar 10 anos nos Estados Unidos ajudou a moldar e amadurecer sua carreira.
Meu nome é Daniel Siebert. Sou músico profissional há cerca de 20 anos e sou líder e fundador das bandas Machado de Einstein, Area Forty Seven, Birds Bad Religion Special, além dos meus trabalhos solos. Comecei na música muito cedo. Morei por 10 anos nos Estados Unidos, nos anos 90, durante a minha adolescência, e já nesse período formei minhas primeiras bandas. Isso me ajudou muito por conta da cultura do rock em si, porque os anos 90 foram o auge de muitas bandas grandes, quando várias surgiram. Também me ajudou muito com a questão da língua inglesa, tanto que hoje tenho muita facilidade em compor em português e em inglês por causa disso. Quanto ao amadurecimento da minha carreira, isso vem acontecendo ao longo dos anos, principalmente com o trabalho com as bandas, as apresentações e as produções. Eu sinto que o que mais me fez evoluir e amadurecer foram as gravações de álbuns e videoclipes, além dos shows ao vivo. Cada show a gente aprende um pouco e melhora algum aspecto. No mesmo sentido, nas produções musicais, a cada álbum que eu faço eu sinto que melhoro na composição, nas letras e no som. Então é uma evolução constante.
Sua versatilidade impressiona, cantor, compositor, produtor musical e multi-instrumentista, além de possuir vários projetos autorais: carreira solo, as bandas Machado de Einstein (Rock) e Area Forty Seven (Heavy Metal). Como estes projetos se encaixam para você realizar suas expressões artísticas?
São várias frentes de trabalho. Através das bandas, cada projeto tem um propósito e características únicas. A Machado de Einstein é um rock autoral (e também tem alguns tributos), mas sempre tentando passar uma mensagem positiva, uma ideia legal. Nessa banda além dos vocais eu toco guitarra base. A Area Forty Seven já vem com uma pegada mais metal, também autoral — nessa banda é tudo música própria. Eu apenas canto, e tem sido uma experiência muito legal poder compor focado só no vocal. Isso porque, tanto no meu trabalho solo quanto na Machado de Einstein, eu sempre estou criando em cima de riffs de guitarra. Eu utilizo muito a guitarra para criar e compor. Muitas vezes a música surge de um riff que eu acho legal: eu salvo a ideia, ou já desenvolvo o tema na hora e vou construindo a canção dessa maneira. Eu também participo de um projeto chamado Birds Bad Religion Special, onde a gente toca só músicas da banda Bad Religion. Pra mim tem sido muito importante e me fez evoluir bastante na questão da composição — tanto na questão melódica quanto no ritmo das músicas curtas e rápidas. Então essa expressão artística passa por várias frentes: do metal ao rock, e ao meu trabalho solo, onde eu tenho total liberdade pra falar sobre o que eu quiser — sobre espiritualidade, sobre Deus, sobre as coisas em que eu acredito, sobre minha vida. Já nas bandas é diferente: é um trabalho coletivo, e a gente segue uma linha de pensamento comum. E, para mim, é muito gratificante poder ter todas essas áreas de expressão musical e artística.
Você tem investido no trabalho solo, lançando 3 álbuns em menos de 2 anos: Laços Indestrutíveis (2024), Nosso Legado (2025) e Pés no Chão (2025). Para um artista independente impressiona a velocidade de produção. O que o levou a priorizar a carreira solo? Como você financia a produção de vários discos com lançamentos tão próximos?
Sim, é verdade. Graças a Deus eu consegui lançar esses três álbuns dentro de dois anos. Isso é realmente uma coisa incrível e uma conquista, dado todo o trabalho que envolve a produção de um álbum: composição, músicos, arranjos, estúdio, investimento e o tempo que isso demanda. Eu venho investindo na carreira solo porque eu tenho mais liberdade pra falar sobre os temas. Mas não é só isso. Também tem a questão do investimento e da dinâmica de trabalho. Como nas bandas é um grupo de pessoas, eu acredito que cada um deve ser responsável por uma parte, tanto do investimento artístico (tempo e dedicação) quanto do investimento financeiro. Como eu tenho muitas composições e estou sempre propondo material — eu ensaio e componho praticamente todos os dias — eu acabo tendo muito conteúdo. Então eu direciono qual material vai para as bandas. No caso da Area Forty Seven, onde eu não toco guitarra e apenas canto, eu desenvolvo as letras em cima das guias que a banda cria. Mas funciona de forma parecida: quando a gente vai produzir, todo mundo se une, financia o projeto, se empenha e viabiliza a produção. Já no trabalho solo, eu tenho mais liberdade, trabalho no meu tempo e posso trabalhar com outros músicos. Isso tem sido uma experiência muito boa, porque eu tenho tido a oportunidade de trabalhar com músicos de excelência, tanto da região de Santa Catarina quanto do cenário nacional. Sobre a velocidade: não existe exatamente um planejamento do tipo “vou gravar dois álbuns em dois anos”. Minha meta sempre foi tentar lançar material novo a cada dois anos. Isso vem desde 2011, quando eu parei a faculdade de música (fiz dois anos e não concluí). Quando parei, tomei a decisão de que o valor que eu gastava com mensalidade eu passaria a investir na música e em mim. E desde então, eu separo mensalmente esse valor para investir nos meus projetos. Isso tem funcionado muito bem porque estúdio, produtores, músicos e equipe de vídeo já são parceiros há anos e entendem essa dinâmica. Então a gente consegue viabilizar os custos dessa forma. Mas não se trata apenas de dinheiro. Precisa ter as composições, precisa ter o momento certo. E, como eu disse, graças a Deus conseguimos fazer esses três álbuns nesse período. A ideia inicial era ter lançado no ano passado apenas o álbum Nosso Legado e trabalhar ele ao longo do ano. Mas eu me inscrevi em uma Lei de Incentivo à Cultura da cidade de Balneário Camboriú, e fui contemplado. Com esse recurso eu pude gravar o álbum Pés no Chão e fazer o lançamento no Teatro Municipal de Balneário Camboriú, com um show gratuito no teatro municipal e 10 vídeos com tradução em Libras. Isso foi um fator muito importante na minha carreira, porque além do material passar por uma curadoria e ser aprovado, me deu a possibilidade de fazer um show ao vivo em um espaço importante. O show foi um sucesso, o público gostou muito, e ele já está disponível no YouTube. Respondendo de forma mais direta: eu financio esses álbuns com organização e planejamento. Eu separo um valor todo mês para investir na música, também conto com a parceria dos músicos, do estúdio e da equipe de vídeo. A gente entra em acordos e parcelamentos e, assim, consegue viabilizar. Via de regra, tirando o Pés no Chão, que foi financiado pela Lei de Incentivo, os outros projetos foram viabilizados dessa forma.
Daniel, você tem forte influência da doutrina espírita nas letras das músicas. Sendo assim, conte-nos qual mensagem você quis transmitir nos álbuns Laços Indestrutíveis (2024), Nosso Legado (2025) e como ambos podem ajudar e inspirar as pessoas.
Sim. Toda música, toda arte, passa uma mensagem. E eu, sendo espírita há muitos anos — me tornei espírita por volta de 2008/2009 — acredito que as palavras e as intenções têm consequências. Então é muito importante sempre tentar passar para os outros aquilo que gostaríamos que fosse feito a nós. O álbum Laços Indestrutíveis surgiu a partir de uma perda muito grande que tivemos na família. Aquilo causou uma comoção enorme em todos nós, e eu procurei colocar pra fora essas emoções através desse álbum. Eu falei exatamente o que eu sentia e o que eu gostaria de ouvir. A ideia é que pessoas que estejam passando por situações difíceis — como perda de entes queridos, questões pessoais, depressão, vícios — possam ouvir essas músicas e sentir esse mesmo conforto e essa mesma força que eu senti ao criar, e que sinto até hoje quando ouço. Já o álbum Nosso Legado segue uma linha parecida, mas é mais abrangente. Como o nome diz, ele fala do nosso legado: ao mesmo tempo em que ele pode parecer pequeno no mundo, ele pode gerar consequências enormes através daquilo que a gente faz. Então o álbum gira em torno dessa ideia: o que a gente faz importa, e gera consequências — no presente e principalmente no futuro.
Ao menos todos seus álbuns mais recentes são produzidos por Oliver Dezidério. Ele também é um parceiro musical, participando da criação de arranjos, letras etc? Como você avalia o trabalho dele na produção? Pretende trabalhar com outro produtor em novos projetos?
Sim. Eu e o Oliver temos uma parceria de vários anos, e por isso a gente trabalha muito bem junto. Essa parceria musical se reflete diretamente na qualidade dos nossos álbuns. Geralmente eu já venho com a estrutura da música pronta, letra e base. A partir disso, os arranjos a gente vai construindo juntos durante o processo de produção. Nós também temos alguns músicos que já trabalharam com a gente em outros projetos. A gente convoca, explica a proposta, e eles trazem a contribuição deles — bateria, baixo, guitarra — e assim a produção vai tomando forma. Depois vem a parte de mixagem e masterização com o Oliver. Ele é o produtor dos álbuns. Eu também tenho experiência com produção e já assinei algumas produções, mas nesses últimos três álbuns eu deixei tudo com ele, e estou muito contente com o resultado. No momento eu não tenho planos de trabalhar com outros produtores, porque estou muito satisfeito com o que eu e o Oliver temos alcançado. A nossa parceria é muito produtiva, e o nosso ritmo de trabalho já está bem desenvolvido. A gente já sabe o que esperar um do outro, conhece as etapas do processo e isso facilita muito.
O novo álbum, Pés no Chão, na minha opinião, é o seu melhor trabalho solo, tanto musicalmente quanto na produção. Traz forte influência de Bad Religion, com ótimos arranjos e letras motivacionais. Quais foram suas inspirações para compor e qual mensagem deseja transmitir nas letras?
Muito obrigado. Esse álbum foi composto e criado depois que eu já estava fazendo parte do projeto Bad Religion Special, então ele realmente traz essa influência do Bad Religion. As letras são motivacionais, sempre com uma reflexão, tentando agregar algo positivo. Minha inspiração foi justamente criar um álbum coerente, onde uma música conversa com a outra. Existe uma história acontecendo ali. A mensagem está presente, mas cada pessoa vai interpretar da sua maneira. No geral, é sobre manter os pés no chão, ter calma. Ao mesmo tempo, é uma mensagem que traz motivação e também conforto. Como diz a última música: “Viver, Sempre há uma Saída”. Pra mim é muito gratificante criar músicas que talvez não agradem a todos — e nem é esse o objetivo — mas que façam pelo menos uma pessoa se sentir melhor. Quando isso acontece, a gente acredita que já cumpriu o propósito. Outro ponto é que eu me sinto muito bem ouvindo essas músicas. São músicas que eu gostaria de ouvir, então elas também cumprem essa função pra mim. E, no fim, é uma expressão artística: como artista, eu sinto essa necessidade de me expressar. E nesse caso, me expressar com mensagens boas, com o lado positivo da vida. Não é que a gente ignore que existe o ruim, que existe o errado, mas a gente decide focar — tanto na vida privada quanto na obra musical — no lado bom. Eu acredito que aquilo que a gente direciona a nossa atenção tende a crescer e se multiplicar na nossa vida. Então essa também é uma das razões dos temas serem sempre positivos: trazer uma reflexão que acrescente algo de bom na vida das pessoas.
O Pés no Chão é um projeto financiado pela Lei Municipal de Fomento e Incentivo à Cultura – Lei nº 3.750/2014, por meio da Fundação Cultural de Balneário Camboriú. Além do disco houve a produção do show de lançamento no Teatro Municipal Bruno Nitz. Para um artista independente, o incentivo público a projetos culturais é importante? Pretende tentar aprovação de novos projetos?
Sim. O álbum Pés no Chão foi financiado pela Lei de Incentivo à Cultura e isso foi muito importante, porque é uma ajuda e uma motivação extra. Na verdade, eu diria que é uma conquista: você recebe um recurso para investir na sua carreira e, ao mesmo tempo, movimenta toda a cadeia profissional da música. Isso envolve músicos, estúdio, divulgação, assessor de imprensa, produtor executivo… enfim, vários profissionais. O show foi uma das contrapartidas do projeto, e ele também movimentou toda a cadeia artística: ocupação do teatro, equipe de luz, som, filmagem, músicos. O show foi gratuito, então veio bastante gente. A proposta desse projeto sempre foi divulgar música autoral num espaço tão importante como o teatro. A gente sabe que, normalmente, artistas e bandas autorais enfrentam muita dificuldade para mostrar o trabalho. As casas mais tradicionais são mais restritas. Existem lugares pra tocar, mas é mais difícil. Então uma das propostas foi justamente chamar atenção pra música autoral e mostrar que existe música autoral de qualidade, e que merece destaque — a ponto de ocupar o Teatro Municipal da cidade. E sim, eu pretendo tentar novos projetos através da Lei de Incentivo à Cultura, porque facilita muito. A gente não precisa se preocupar tanto com a questão financeira, e consegue direcionar o recurso para aspectos que muitas vezes ficam difíceis de cobrir num lançamento, porque lançar um álbum é muito custoso. Eu já tenho em mente a continuidade do Pés no Chão, que seria um novo álbum. Eu já estou compondo e tenho muito material: cerca de 60 músicas. O desafio agora é selecionar 10 para esse novo trabalho. E eu acredito que, à medida que eu vou evoluindo como músico e a carreira vai crescendo através dos álbuns, shows e conquistas, a gente vai disponibilizando material novo para quem acompanha sempre ter novidades — e sempre músicas que agreguem valor à vida das pessoas.
Para 2026, quais os planos, pretende realizar lançamentos com as bandas Machado de Einstein e Area Forty Seven, shows ou o foco é seguir na carreira solo?
Em 2026 eu sigo focado na composição, como sempre. Eu estou sempre compondo, arquivando e desenvolvendo ideias para produzir esse novo álbum que eu mencionei, que seria a continuidade do Pés no Chão. Com a Machado de Einstein, a princípio, não temos nenhum projeto em vista, porque muitos integrantes viajam. Então este ano, especificamente, a gente está tendo mais dificuldade de se encontrar — tanto que ainda nem conseguimos nos reunir. Já com a Area Forty Seven, teremos lançamento sim. Temos três músicas: duas em fase de finalização e uma em processo de produção. A ideia é voltar com tudo este ano, fazendo shows e trabalhando em novos projetos. Quem sabe até surge um álbum. Então vamos estar trabalhando bastante.
Daniel, parabéns pelo trabalho, mesmo sendo artista independente você mantém a qualidade alta e profissionalismo. Deixe uma mensagem para nossos leitores e links relacionados ao seu trabalho.
Muito obrigado pelas palavras. Ser um artista independente é uma batalha que exige muita força de vontade, mas é possível. Eu acredito que esse é um dos legados que eu quero deixar. Quero agradecer ao Neder pela entrevista e pela oportunidade de falar sobre o meu trabalho. Agradeço também ao OverRocks, portal e web rádio, pelo espaço e pelo apoio à música autoral. E claro, quero agradecer a todos os fãs, a todo mundo que acompanha, incentiva, vai aos shows e apoia todos os projetos em que eu estou envolvido. Esse feedback é muito importante. Quando a gente vê a carreira crescendo e as coisas acontecendo, a gente entende que isso é graças a vocês. Minha mensagem pessoal é: foque a sua atenção no lado bom das coisas, porque aquilo em que a gente foca tende a aumentar na nossa vida. Muita fé e muita paz a todos. Muito obrigado. Eu estou em todas as plataformas digitais: YouTube, Spotify, Deezer… é só pesquisar por Daniel Siebert. Também pelos nomes das bandas: Machado de Einstein, Area Forty Seven e Birds Bad Religion Special. É bem fácil de encontrar. Tem muito material disponível em todas as plataformas, e principalmente no YouTube. Inclusive, recentemente, nós passamos de 1 milhão de visualizações no canal, e isso mostra a nossa consistência e relevância no cenário autoral.
Muito obrigado e um grande abraço a todos.
Por Rômel Santos – Island Press

